“Alas! It is ill to walk in my shadow! Why did I seek aid? For now you are alone, O Master of Doom, as you should have known it must be.”

The Children of Húrin é o mais recente livro publicado de Tolkien… Espere, isso merece uma explicação. Recente?! Há inúmeras anotações inéditas que Tolkien deixou. Nosso querido, louvado, Christopher Tolkien pegou a bagunça toda, foi juntando os pedaços e tchrãns! Eis o livro novo de um autor morto há tempos. Agradeçam-no!

Voltando ao livro… Húrin Thalion era um grandioso guerreiro que foi capturado por servos de Melkor na Nirnaeth Arnoediad, batalha das lágrimas incontáveis. Por não revelar a localização de Gondolin (e, assim, trair seus amigos) ao Senhor do Escuro, ele e sua família recebem uma maldição. Túrin e Niënor, seus filhos, crescem, vivem e morrem sob esta sombra. O livro então nos trás este conto: o de Túrin Turambar e sua sina. Fadado ao fracasso e a morte em tudo que fez e, apesar disso, senhor de alguns dos maiores feitos dos homens. É uma história triste. Fala de destino, poder e (por que não?) MUITO azar.

Para mim esta é uma das melhores histórias de Tolkien. Ela é tão desesperadoramente irremediável! Cercada de morte e lágrimas, como deve ser se alguém é amaldiçoado pelo próprio Morgoth. O fardo de Túrin é assombroso. Já conhecia bem a sua história a partir d’O Silmarillion e dos Contos inacabados: já havia lido, relido, chorado. Mas um livro de Tolkien é sempre um livro de Tolkien, certo? E justamente por ser Tolkien, não esperei a tradução (não, meu inglês não é bonito).

Se por um lado tive que parar algumas vezes para consultar um dicionário (coisa pela qual eu tenho ojeriza), por outro ler em inglês foi interessante. Para o poeta Robert Frost, a poesia “é tudo o que se perde na tradução”. Não sou tão radical, há traduções e traduções, contudo, é óbvio que alguma coisa se perde. Cada língua tem suas minúcias, seu tom, sua luz. Nunca tinha lido nada original de Tolkien e sabe o que notei? Uma melodia em sua narrativa – especialmente nas falas. Melodia que não notei em português, que se perdeu na traudção. Parece que há alguma canção sussurrada entre as páginas. E a forma de ele escrever é tão… diferente? Acho que é isso. É como se tivesse um tênue ar arcaico. Talvez por certas palavras usadas. Tem algo da própria Terra-média. Notei isso mais ainda em As Aventuras de Tom Bombadil, já que em poemas isso fica ainda mais evidente. Ou seja, se já ficava maravilhada com as descrições em português, não teria palavras para comentar como foi ler o original (Se não desse tanto trabalho só leria Tolkien em inglês depois dessa, rs) 

O livro, como esperado, não tem nenhuma novidade: juntando a versão d’O Silmarillion e dos Contos, quase não há nada de inédito na história. Seu diferencial são as descrições. Por, obviamente, ser mais longo que qualquer conto dos livros anteriores, há tempo em The Children of Húrin para falar mais dos lugares, das pessoas e do próprio Túrin. Alguns trechos inéditos, poucos. Eu achava que isso poderia ter sido melhor utilizado: A cena com Glaurung mesmo, foi praticamente igual ao do Silmarillion. Suponho que é por eles se prenderem firmemente ao que foi deixado pelo professor, coisa que acho fundamental. Assim, não esperem muitas cenas a mais, ou um desfecho diferente do já conhecido. Se iriam comprar por isso, não o façam.

Mas não deixem de ler por isso! A história de Túrin é magnífica, primorosa. “The darkest of all Tolkien’s tales” Segundo a Times Literary Supplement. Merece ser lida e relida e lida mais uma vez. De fato, merecia um livro só para ela.

Túrin, assim como Niënor são personagens incríveis. Poderosos filhos dos homens, donos de bravura sem igual, orgulhosos e nobres tais como senhores élficos e, no entanto, perseguidos por uma sina maior que eles, que mancha de sangue tudo o que fazem. E o temperamento explosivo de Túrin, sua arrogância, seus julgamentos mal feitos e suas péssimas escolhas só contribuem para sua desgraça.

A dor resultante disso é lindamente retratada no livro, desde nos pequenos gestos, até nas dezenas de nomes escolhidos por Túrin ao se esconder (se esconder de amigos, inimigos e principalmente de seu passado – que sempre o encontra). Sua altivez e sua força sempre marcadas pelas lágrimas e pela dor. É incrível.

Há certos trechos maravilhosos, mas o que mais marca é o próprio clímax. O pior estava reservado para o final. E parece que o fim foi misericordioso com Túrin (não com Niënor). Foi grandioso e digno dos filhos de Húrin. Outro é o de Beleg Strongbow, gosto bastante dele; A loucura de Morwen e Niënor; a maldição e o poder do dragão; poderia citar inúmeros

Outra coisa que não posso deixar de elogiar são a ilustrações. Desde o desenho no inicio de cada capítulo, das imagens no próprio livro até a capa (destes quem eu menos gostei foi a capa, rs). Sugiro que abram o livro e procurem-nas, mas se pudesse poria todas aqui. São perfeitas! Tá, só uma:

Enfim, é um livro trágico, sombrio e maravilhoso.

P.S.: Vale a pena conhecer a Teoria da Coragem do Norte, pois ela se encaixa perfeitamente com o modo de pensar de Túrin, vou pôr um trecho explicando o que ela é aqui para vocês

“Essa coragem extrema é conhecida por alguns especialistas como Teoria da Coragem do Norte, ou simplesmente Teoria da Coragem. Há, contudo, duas teses que justificariam essa bravura. A primeira é que, pela crença do povo nórdico, há um grande evento chamado Ragnarök, o crepúsculo dos deuses. Esse acontecimento levaria ao fim do mundo após uma grande guerra entre as forças do bem e do mal, envolvendo todos os deuses e heróis. Esta é uma batalha que opõe os Aesir, liderados por Odin, a um exército liderado pelo deus Loki. Ambos os lados contariam com grandes guerreiros em combate – quase todos acabariam sendo mortos no confronto.

O destino deste conflito é trágico: Odin fere mortalmente o lobo Fenrir, filho de Loki, mas também tomba no combate; Th or consegue derrotar Jomungard, uma serpente gigante, mas acaba sendo envenenado e também morre; um dos mais valentes guerreiros dos Aesir, Heimdall, vence Loki, mas cai em seguida. Por fim, Midgard, a Terra dos mortais, é consumida pelas chamas.

Sendo assim, a própria religião escandinava da Idade Média pré-cristã pregava a idéia de que todos os heróis teriam o mesmo destino: estavam fadados a perecer na guerra. Entretanto, isso não era suficiente para que os guerreiros evitassem as guerras. Pelo contrário: mesmo diante da morte certa os guerreiros não declinavam de sua missão, pois mesmo a derrota podia trazer glória.

(…)

Johnni Langer, no entanto, não associa a Teoria da Coragem com o Ragnarök – embora continue argumentando com base na religião pagã. Para ele, a bravura dos escandinavos estava mais ligada diretamente aos cultos a Odin, e não ao grande confronto entre os deuses. Segundo ele, os guerreiros nórdicos pertenciam a uma aristocracia odinista. ‘A idéia máxima entre os odinistas é que o guerreiro deveria morrer em batalha para poder alcançar o Valhala, o paraíso presidido pelo deus Odin. Esse ímpeto de tombar em combate dava uma coragem a mais’, afirma.”

fonte: http://povoviking.blogspot.com/2010/04/beowulf-o-livro-perdido-2-parte.html

Ou seja, você não deve ser bom e tenta buscar a glória não por que isso vai ser recompensado e sim por que é o certo. Independente do que há contra você ou de suas consequências. Bondade  é aí, sobretudo, um ato de bravura.

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