“O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”

Já há algum tempo olhava a série d’A Torre Negra com certo interesse. Por um sem-numero de motivos nunca a iniciava: outras séries, outros autores, outras prioridades. Vocês entendem perfeitamente. Depois de muita enrolação, comprei o seu livro inicial, O Pistoleiro.

Pelo que entendi (mais tarde vocês entenderão minha ressalva), A Torre Negra conta a história de Roland, o último pistoleiro, e de sua busca pela… Torre Negra. E a Torre seria…? Seria… bem, o lugar fodão que a tudo controla. O Tempo, o Espaço, o Tamanho. O primeiro livro centra-se na perseguição ao homem de preto, Walter das Sombras, que parece ter algumas das respostas para as perguntas do pistoleiro. Respostas necessárias para que ele chegue à Torre.

Eu fiz aquela ressalva pois quase nada fica perfeitamente explícito no livro. Por exemplo, não sei – muito embora tenha boa idéia – por que o pistoleiro tem de chegar a Torre. Não sei por que ele é o último pistoleiro. Ou exatamente o que significa ser um pistoleiro. Não sei por que o homem de preto tem as respostas, tão pouco quem é o homem de preto. Tenho uma idéia de quem seja Roland, mas nada muito concreto.

O livro fica assim e você passa a se guiar pelos devaneios e pensamentos desconexos de Roland (até para saber que seu nome era Roland – se é que o é de fato – demorou). Não que eles não sejam bons guias – só não são tão explícitos quanto aos que estou acostumada. É a partir desses que você tem uma noção de onde ele veio, de que algo aconteceu àquele mundo, de seu real objetivo. Mas é tudo, eu repito, vago. Um modo interessante de se contar uma história, ainda que obscuro.

Isso por que, ao começar o livro, a história já está desenvolvida: não há aqueles trechos de conversas elucidativas, nem nada do tipo. Não há inicio. É isso. Como o homem de preto diz, aquilo é o fim do começo.

Por falar em incertezas, outra coisa que não sei é onde se passa o romance. Ele tem muitas referencias culturais contemporâneas: a música Hey Jude, por exemplo, é citada algumas vezes. Há gasolina. O protagonista cita aviões, apesar de parecer não conhecê-los. Por outro lado, Roland não sabe o que é um metrô, ou uma televisão. Nunca ouviu falar de New York. Parece que esse mundo é uma grande sopa pós-apocalíptica do nosso mundo.

Mas essa explicação ainda não dá conta de Jake, o garoto que o Pistoleiro encontra no deserto. Ele veio de New York. O que raios estava fazendo naquele deserto? Como foi parar lá? Não entendo e, por enquanto, não há meios para que eu entenda. Isso me deixa meio desconfortável. É como se houvesse vários pequenos mistérios no decorrer do livro aos quais não posso me deter, já que não são o tronco da história e não vão receber uma explicação apropriada (pelo menos neste livro). Entendem o que quero passar?

Outra coisa que me saltou aos olhos? Sua linguagem.

De alguma maneira ela é sempre inusitada. Como se seguisse o caminho diferente do esperado – e até mesmo dos já costumeiros inesperados caminhos. Vou exemplificar, pois acho que estou sendo obscura. “A moeda emitiu seu orgulhoso brilho civilizado – dourado, avermelhado, sanguinário” WHAT?!  Sanguinário?! Ela sai do fluxo natural, dá guinadas e quebra toda gradação. É inegávelmente marcante. Dá um tom bem característico, bem único, ao livro.

Mais uma observação foi a de quando ele a usa, se é que me entendem. É, não entendem, vou me explicar. Voltando ao exemplo da moeda: “A moeda emitiu seu orgulhoso brilho civilizado – dourado, avermelhado, sanguinário”. Embora nesse trecho do livro a personagem esteja apenas comprando um sanduíche, ele descreve a moeda com tanto foco e pompa que, deslocado do contexto do livro, poderíamos considerá-la perfeitamente a parte principal de um clímax qualquer. Isso ocorre a todo o momento.

Ele prende-se a esses detalhes, a aspectos da cena que muitos autores até ignorariam e põe um teor dramático e até filosófico. Quantas vezes afinal você pára na frente de um restaurante e olha pra suas moedinhas imaginando como o brilho delas é civilizado e sanguinário (independente que o seja ou não)? Pois é. Não muitas. É a isso que me refiro ao dizer que os momentos que ele ‘usa’ sua linguagem são… hum… diferentes.. 

E essas características inusitadas reforçam ainda mais o caráter “diferente” do livro.

Seguindo esta linha pouco usual estão os personagens. São poucos: Roland; o homem de preto; Jake, o garoto; Allie. Posso ainda citar o fazendeiro, as outras pessoas de Tull. Se pusermos aqueles que povoam as lembranças de Roland, esta lista aumenta – apesar de ainda não ser considerável. O livro foca-se bastante no protagonista, então foi falar apenas dele (a resenha já está enorme)

Roland é visceral. Pouco imaginativo, sem ética. De alguma forma você espera que isso se quebre, por que é isso que se espera de protagonistas. Se eles não são nobres desde o começo, em algum ponto vão se redimir. Mas, pelo menos no primeiro livro, isso não ocorre. Ele parece uma máquina: cumpre sua função, qualquer que seja ela; não pensa, apenas faz. Gosto dele, apesar de ser burro e pouco elucidativo. Personagens diferentes sempre me atrairão e Roland é tudo, menos um protagonista “padrão”.

É um bom livro. Mas é só o começo, assim, não tenho como julgar muito bem. É pouco material de uma série muito grande e ainda há muito que ainda não sei. Já há – no entanto – mérito em me segurar com tão pouca informação. Espero logo escrever pra você sobre o segundo livro. E espero (mais ainda que lhe escrever, me perdoe) ter algumas respostas nessa continuação.

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    • Henrique Almeida
    • 27 de abril de 2011

    Não sei há quanto tempo vc escreveu essa resenha. mas foi a melhor que li sobre este livro até agora. (Estou me preparando para ler o segundo volume da série)

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