“Mas os olhos eram cinza-prateados e repletos de luz: os olhos de um lobo”

Irmão lobo, primeiro volume das Crônicas das trevas antigas, conta a história de Torak e de lobo. Antes de falar deles, no entanto, vou falar do mundo em que se passa a história ­– a parte mais fascinante do livro pra mim (tanto que, como vocês verão, falei mais dele que do livro em si na resenha).

Estamos há uns seis mil anos, na Europa: o continente ainda está coberto de florestas. Os homens vivem em clãs, ainda não conhecem agricultura ou escrita. São coletores, caçadores. O livro transmite bem o que seria o ‘espírito da época’. As superstições, hierarquias, os clãs. Mas principalmente a ligação entre a floresta e seus moradores

Na verdade, acho que a integração com a floresta é o cerne do que chamo de ‘espírito da época’: não poderia ser de outra forma, afinal eles dependiam dela de uma forma bem extrema. Eram caçadores, coletores. Faziam parte dela como o veado e o javali.

E a autora descreve pequenos detalhes – como uma pegada, ou frutos –, fala dos hábitos e do temperamento dos animais – como auroques, ou carcajus – com tanta propriedade… Tanta propriedade que você se sente parte dela: os cheiros, a umidade, tudo. Mas não é uma descrição pesada, tanto que não são livros longos. É leve, simples, gostosa, bem livro infanto-juvenil, que é o que a série é.

 Além dessa minúcia, o que dá muito corpo a este pertencer à floresta são os rituais e superstições. O fato de eles nunca deixarem uma carcaça sem aproveitá-la ao máximo, por exemplo… Olha como essa atitude mostra respeito à totalidade do mundo em que eles vivem. Consciência daquela dança de vida e morte. Noção de equilíbrio…

Cativa um bocado. Talvez por isso faltar um pouquinho em nossa sociedade. Para um clã de caçadores, a importância da floresta é muito mais explicita do que pra alguém que compra sua carne no supermercado mais próximo. Mesmo que a floresta – ou o que ela representa, no caso, – tenha a mesma importância (vital) para ambos.

Mas não me deixem divagar! Esses pensamentos fazem com que eu me perca: de volta para o livro. Torak (o protagonista, caso vocês não lembrem, rs) é um garoto órfão de mãe que vive com o pai, um caçador, sozinho na floresta, aprendendo esse ofício com ele. Na verdade, sozinho não é a palavra perfeita: melhor seria isolado. O pai o esconde dos clãs. Isso nunca incomodou Torak. Até o momento que Pa morre.

 E não é uma morte natural. Pa foi morto por um urso. E não é um urso natural. No corpo daquele urso – que normalmente já seria o maior caçador da floresta – foi posto um demônio. Agora ele é um ser mortal e poderoso, cujo único desejo é matar. A cada lua torna-se mais forte.

Quem conta isso a Torak é o moribundo Pa. E ele lhe pede uma promessa: que Torak busque a montanha do espírito do mundo, pois é apenas lá que poderá se encontrar um meio para destruir o demônio-urso. Torak, obviamente, promete: não costuma se negar promessas a pais para morrer. Mas não tem idéia alguma de como ele, um pirralho, irá encontrar uma montanha nunca achada; de como irá matar um urso invencível.

Andando pela floresta, ainda perdido e atordoado pela perda do pai, ele acha um abrigo de lobos alagado. O único sobrevivente é um filhote. O primeiro pensamento de Torak é comê-lo. Não dura muito tempo: ele descobre que consegue se comunicar com lobo. Antes que vocês torçam o nariz não é nada sessão da tarde. A comunicação é precária e o livro dá uma explicação mais tarde para isso. Lobo mostra-se, além de um maravilhoso bicho de estimação, o guia de Torak, mas não vou me aprofundar muito nisso: descubram por si próprios.

Quando lobo entra na história a narração se divide. Tem capítulos sob a ótica de Torak. Tem capítulos sob a ótica de lobo. E como eles são bonitinhos! A ênfase naquela integração é ainda maior – afinal é um lobo – e os nomes das coisas deixam tudo com cara de lobo. O alto-sem-rabo, o brilhante bicho-que-morde-quente. Muito dos substantivos viram essas composições. Eu adorei… é tão característico dele.

Tanto ele quanto Torak são personagens adoráveis. Torak às vezes é meio tedioso, mas me apaixonei por Lobo. Porém, não há muito que se falar. O livro é bem simples; é infanto-juvenil; o enredo é muito bem amarradinho, mas não tem nada de complexo. Sabe aquelas comidinhas (tenho que parar de comparar livros com comida… gente, não sou gorda, ok?) fáceis de fazer, gostosas e que não pesam? Não dá trabalho, você come e é gostoso. Irmão lobo é por aí. Se você não tem perfil pra suspirar por lobos, ou pra livros infantis, nem perca seu tempo: não vai gostar.

Voltando ao enredo: Torak, agora com lobo, acabam por encontrar um dos clãs: o clã do corvo. Não vou me estender muito mais, pois deixaria de fazer uma sinopse, para fazer um resumo. Basta dizer que lá ele encontra a outra personagem principal do livro – Renn – astuta, afiada e por vezes frágil, como só uma garota costuma ser; e que lá ele descobre muito mais sobre ele e sobre o próprio pai – e é no desenrolar disso que o livro torna-se mais (não que seja muito) complexo.

Ao longo da série, com, até agora, quatro ou cinco livros (saiu um recentemente), novos mistérios aparecem, outros tomam aspecto mais sinistro. Não é que ela deixe de ser infantil, mas fica mais robusta – se é que me entendem – se compararmos com outros livros do gênero. A magia torna-se mais recorrente, por exemplo (A propósito, o modo como a autora trata magia nessa coleção é, para mim, outro ponto positivo. Não é nada exagerado: não temos super-poderes. Toda ela é perfeitamente coerente com o mundo que é apresentado. Encaixa-se muito bem, o que é vital).

Enfim, não é de longe minha série favorita, não entraria em desespero se ela ficasse incompleta e não me lembro de tê-la indicado para ninguém. Porém de vez em quando passo por sua estante para vê se saiu um novo livro, e bem… estou relendo, então não posso achar tão ruim assim. Se estiver com dinheiro sobrando, sem nenhuma outra série em vista e se identificar com o que eu falei aqui, compra sem medo.

 

P.S.: *spoiller* Achei o final sem-sal. Assim, não que esperasse nada diferente… não foi tanto o enredo que me decepcionou, mais a descrição: aquilo para mim não passou emoção nenhuma. Fiquei muito mais angustiada quando Torak cai no rio, ou quando eles entram naquela boca from hell. Tanto que lembrava mais desses trechos que do fim em si. *fim do spoiller*

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